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A revolução tecnológica tem promovido verdadeiras transformações nos negócios, abrindo horizontes antes inimagináveis para o uso da inteligência artificial, entre eles,  a criação de produtos alimentícios com maior apelo de inovação e assertividade


 

Os avanços exponenciais da tecnologia nos últimos anos têm proporcionado uma verdadeira revolução em todos os segmentos de negócios,  impulsionando a inovação. Soluções de inteligência artificial estão ganhando espaços antes inimagináveis e desempenhando funções consideradas até então exclusivas de profissionais especializados.

Isto já é realidade nos mais diversos setores, com softwares que auxiliam na execução de diagnósticos mais precisos de doenças, atuam na geração de “arte” (Laboratório de Arte e Inteligência Artificial da Rutgers) e servem de apoio ao desenvolvimento de novos alimentos e bebidas.

Sim, há indústrias de alimentos e bebidas que já estão utilizando a inteligência artificial em diferentes atividades, como na classificação de produtos para fabricação (TOMRA Sorting Food), para melhorar a higiene pessoal entre trabalhadores (KanKan), na gestão da cadeia de suprimentos (Symphony RetailAI) , no serviço de atendimento ao cliente (Watson por exemplo) e, inclusive, na pesquisa e desenvolvimento de produtos. Afinal, a tecnologia pode ajudar a otimizar as operações, melhorar as ofertas, oferecer uma melhor experiência ao cliente e melhores produtos.

“Este é um caminho inexorável, vai acontecer. A tecnologia evolui permanentemente, não tem como freá-la. E justamente por isto nós, profissionais de pesquisa e desenvolvimento, não devemos ter medo dela, mas, sim, aproveitar para explorar ao máximo os seus benefícios”.

Alertou a engenheira de alimentos Cristina Leonhardt, fundadora do site Sra. Inovadeira e co-fundadora da Tacta Food School, durante palestra sobre o tema no evento Horizonte 2019, que contou com patrocínio da Duas Rodas.

Para Cristina, quanto mais os processos de desenvolvimento de produtos puderem ser acelerados, melhor:

“Se deixarmos as tarefas mecânicas, cálculos mecânicos e testes de tentativa e erro para serem resolvidos por um algoritmo, poderemos cuidar muito mais dos aspectos mais simbólicos dos alimentos, aquilo que os algoritmos pelo menos por enquanto não vão conseguir resolver.”

Mas em quais fases do desenvolvimento de novos produtos que a tecnologia tem possibilidade de contribuir? Exemplos pelo mundo mostram que a inteligência artificial pode ser aplicada em diferentes etapas do processo de P&D, contemplando ideação, formulação dos novos produtos e até análise sensorial.

Confira abaixo seis cases de uso da inteligência artificial no desenvolvimento de produtos na indústria de alimentos e bebidas que separamos para você:

 

 

Formulações baseadas 100% em ingredientes vegetais

A chilena NotCo , fundada em 2015, é um dos cases globais mais expressivos. Com o software Giuseppe, a startup chamou a atenção do dono da Amazon, Jeff Bezos, e recebeu, no início deste ano, um aporte de US$ 30 milhões.

O software usa inteligência artificial para gerar “fórmulas de alimentos conhecidos baseando-se apenas em ingredientes vegetais, imitando o sabor e a textura dos alimentos que se desejam replicar”, explicam seus fundadores Matias Muchnick, Pablo Zamora e Karim Baksai.

Com esta proposta, a empresa já lançou no mercado produtos que trazem versões à base de plantas de produtos tradicionais como a maionese vegana (NotMayo) e o queijo (NotCheese), em pleno alinhamento às tendências de consumo que vêm crescendo nos últimos anos e se mantêm para 2019. Investimentos em avanços do software devem promover em breve o lançamento de novos produtos ao mercado, indicam seus fundadores.

Segundo Cristina, algoritmos a exemplo do Giuseppe podem ajudar já na etapa inicial do desenvolvimento de produtos, ou seja, atendendo todos os objetivos do briefing desde a primeira formulação. Na forma tradicional, segundo ela, ainda há muita tentativa e erro até chegar à primeira fórmula.

Ela exemplifica: a inteligência artificial pode considerar uma quantidade muito maior de matérias-primas cadastradas, até mesmo aquelas desconhecidas pelo pesquisador, e fazer interações entre os ingredientes, além de rodar um número expressivo de testes, que não precisam ficar limitados a 5 ou 10, mas podem chegar a 1.000 ou até muito mais.

“Se o pesquisador puder já começar com uma formulação que atinja todos os objetivos do briefing, é possível ir para a bancada só para confirmar isso ou, então, para analisar o caminho indicado, talvez empregando ingredientes que nem haviam sido cogitados em em empregar naquela fórmula, vejo que isso é um grande avanço”, afirma Cristina.

Opções de sabores e combinações

Diferentes cases mostram que a inteligência artificial pode ajudar já na etapa de definição de sabores, composição de alimentos e preferências, por exemplo, por classes etárias ou etnias.

A empresa Foodpairing  combina o uso do big data sobre preferências de consumo e tecnologias para identificar ingredientes que oferecem combinações de sabores interessantes, para ajudar na definição de opções, agilizando o início do processo de desenvolvimento.

Preferências por grupos demográficos

Outro exemplo de ferramenta de inteligência artificial voltado para o desenvolvimento de produtos é a Gastrograph AI, cuja tecnologia usa algoritmos genéticos para modelar e antecipar preferências de sabores de diferentes grupos de consumidores, considerando, por exemplo, faixa etária, classe econômica e etnia. Como os dados podem ser segmentados em grupos demográficos, a proposta é ajudar as empresas a desenvolver novos produtos que correspondam às preferências de seu público-alvo.

 

Calamansi, um sabor emergente

O calamansi, um dos sabores indicados pela agência internacional Mintel como ingrediente a ser observado para os segmentos de confeitaria e chocolate em 2019, baseou-se em informações de inteligência artificial. Um programa de computador usado pela coreana Lotte Confectionery identificou o calamansi como um sabor emergente, avaliando dados de mais de 80.000 sites e 10 milhões de relatórios de consumidores sobre a preferência por sabores e ingredientes. Baseado nestes dados, a Lotte lançou sua edição limitada de bolo com sabor de ‘mon cher calamansi’ com recheio de creme, o snack de pretzel recheado com ‘chocolate toppo calamansi’ no Japão e o sabor calamansi no iogurte Pepero na Coréia do Sul.

Combinação favorita vira refrigerante

Outro exemplo do uso de inteligência artificial por empresa do varejo é o da Coca-cola. Com os dados coletados pelo projeto Coca-cola Freestyle, em suas mais de 40 mil máquinas self-service de bebidas disponibilizadas no mercado norte-americano e europeu desde 2009, foram identificados os sabores favoritos dos consumidores. A máquina oferece mais de 150 combinações de sabor de bebidas gaseificadas e não gaseificadas. Uma das combinações favoritas – de Sprite com o sabor cereja – culminou com o lançamento da Sprite Cherry e sua versão zero.

Percepções de consumidores através de avaliação sensorial on-line

Fundada em 2017, a startup FlavorWiki é uma plataforma de avaliação sensorial on-line das percepções e preferências de produtos pelos consumidores através de um aplicativo digital. A ideia é fazer os consumidores descreverem o produto através, por exemplo, da escolha do sabor mais intenso e do atributo que percebem no primeiro momento. A plataforma permite reunir preferências dos consumidores de forma global e com rapidez superior aos métodos tradicionais.

Estes são alguns exemplos de aplicação  da inteligência artificial no segmento de alimentos e bebidas,  aproveitando a tecnologia que começa a ser utilizada pelas indústrias para criar lançamentos, proporcionado maior agilidade e assertividade aos processos. “É um caminho sem volta”, reforça Cristina, que vê ganhos e defende o uso da inteligência artificial também pela área de pesquisa e desenvolvimento das indústrias.

E você, como avalia a possibilidade de aproveitar estes recursos tecnológicos para o desenvolvimento de produtos? A sua empresa já utiliza a inteligência artificial em P&D e outras áreas? Conte para nós!

 

Além da tecnologia, o futuro da alimentação já está presente e possível imaginar como  impactará o segmento de alimentos e bebidas no mundo, confira em nosso post!

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