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O ano que abalou o mundo com uma pandemia insólita impulsionou a construção de caminhos alternativos com uma velocidade fantástica, acelerou movimentos de consumo, adequou comportamentos a uma nova realidade e reforçou tendências em ascensão, como plant-based, transparência, saúde e bem-estar e conveniência. Confira, a seguir,  um panorama do que promete inspirar novas oportunidades para indústrias de alimentos e bebidas mapeados por agências de inteligência de mercado 


Em 2020, 5.367 novos produtos foram monitorados pelo Mintel GNPD no Brasil, número 5% menor do que o registrado em 2019. Não é possível afirmar, com toda a certeza, a redução como um efeito da pandemia, visto que, em 2019, também tivemos uma redução, ainda que mais moderada (-2,3%) no número de lançamentos no país

Entretanto, no ano em que o mundo parou, a Terra “girou mais rápido” e movimentos que se encaminhavam ganharam forma. No ano passado, o “estar com a saúde em dia” ganhou a real importância e o equilíbrio emocional virou uma perfeita armadura para enfrentar um novo cotidiano. O querer ser ouvido foi à mídia e tornou-se voz coletiva. A ação com o planeta trouxe, então, as reações drásticas e nos exigiu uma nova tratativa. 

Em 2020, tudo se conectou e os 12 meses que, para muitos, não existiram moldaram significativos pilares para serem seguidos em 2021. 

O que dizem as principais agências de mapeamento de tendências para ajudar a dar o tom aos próximos meses que deverão correr mais rápido ainda? Confira a seguir:  

O alerta em relação às complicações da COVID-19 em pessoas com comorbidades reforçou a importância da manutenção da saúde física em todo o mundo. No aspecto emocional, o isolamento e as incertezas trazidas por 2020 contribuíram para a valorização do equilíbrio e, desta forma, o bem-estar consolidou-se como uma demanda contínua que, com a evolução da pandemia para o ano de 2021, deve continuar sendo uma forte vertente. 

Desde quando a pergunta passou a fazer parte do roteiro dos relatórios da Mintel, a alimentação saudável, de 44% em maio, tornou-se prioridade para 59% dos brasileiros em setembro, e a saúde mental avançou de 60% a 63%, nos mesmos períodos. Em julho, para a mesma agência, 73% dos brasileiros indicaram os hábitos alimentares saudáveis como importantes para o bem-estar físico e mental.

De fato, o brasileiro tem evoluído na prática neste sentido. 

A fase inicial do estudo NutriNet Brasil, realizado pelo Núcleo de Pesquisa Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP, apontou crescimento no consumo em alimentos como frutas, hortaliças e feijão durante a pandemia. 

Nas regiões Nordeste, Norte e entre as classes mais baixas do País, entretanto, o aumento de consumo se deu entre alimentos considerados “ultraprocessados” e constantemente vilanizados pela mídia e alguns especialistas em nutrição.

Formulações mais adequadas às visões de saudabilidade

Esta visão reforça a necessidade da contínua batalha da indústria de alimentos no fornecimento de produtos com formulações mais adequadas às visões de saudabilidade, como ingredientes mais naturais e os baixos teores de açúcares, gorduras, sódio e outros ingredientes. 

Um pouco diferente dos produtos tradicionais, mas que têm justamente o apelo de formulações mais adequadas à saúde são as Hard Seltzer. A água com gás saborizada e alcoólica com apenas 100 calorias movimentou cerca de 3,2 bilhões de dólares nos EUA entre janeiro e outubro de 2020, um crescimento de 188% em relação ao ano anterior, de acordo com a Nielsen.

No Brasil, a categoria já existe há um tempo, mas passou a ser impulsionada há 4 meses com o lançamento da Topo Chico, a Hard Seltzer da gigante de bebidas Coca-Cola.

Outro exemplo está nas cervejas, categoria com a qual a Hard Seltzer concorre. Iniciando o percurso em solos brasileiros em julho, a Heineken 0.0 obteve excelente resposta do público com crescimento de dois dígitos ao longo dos meses, evolução que não se imaginava para um item deste nicho (cervejas zero álcool) até pouco tempo atrás.

Entre os principais fatores de escolha de um alimento ou bebida para o brasileiro estão a contribuição para a ingestão diária de frutas e vegetais (38%), ser fonte de vitaminas e minerais (35%), ingredientes naturais (31%), baixo teor de sal (24%), baixo teor de gordura (23%), baixo teor de açúcar (22%),  entre outros. 

Em geral, os dados apresentados na pesquisa de julho de 2020 pela Mintel não são lá grande novidade, mas em virtude das novas regras da rotulagem de alimentos, que entram em vigor em 2022, a indústria deve movimentar-se ainda mais por esta direção. Entretanto, a real chave daqui em diante está na acessibilidade. Por mais que, ainda com maior incidência entre as classes A e B, o interesse em claims saudáveis se estenda por todas as camadas sociais e pagar a mais por isso nem sempre seja uma disposição.

Valor justificado, democratização e transparência

Consultorias de tendências trazem o “valor justificado” e a “democratização” da alimentação saudável como mandatórios a partir deste ano. Trata-se de transparência, tendência que lidera o relatório Innova Market Insights para 2021. 

O entendimento de processo, a função de um ingrediente e até mesmo a comprovação de um certo benefício são fatores contemplados por estas visões.  

Um exemplo é a barra energética com sabor de torta de abóbora com especiarias, lançadas nos EUA pela Clif, que busca aliar os conceitos de nutrição para energia e sustentabilidade.  A empresa está plantando 1 milhão de árvores e explora estes claims na embalagem.

Novamente para a Mintel, o brasileiro colocou como qualidade importante em um mundo pós-Covid produtos com maior qualidade (49%), menor preço (48%) e que sejam produzidos em ambiente seguro e higiênico (43%).

O aumento da imunidade também foi um destaque, sendo uma das armaduras para evitar complicações causadas pela enfermidade pandêmica. De acordo com o Kantar, no segundo semestre do ano passado, vitaminas e multivitamínicos ganharam 1,7 milhões de   lares compradores a mais em relação ao primeiro. 

No campo de alimentos e bebidas, apesar de ainda um nicho no Brasil, lançamentos com apelo voltado ao sistema imunológico cresceram 53,8% em relação à 2019.  

A Danone, por exemplo, relançou o seu Actimel, leite fermentado com formulação composta por 10 bilhões de lactobacilos e vitamina C.

Bem-estar em todos os sentidos

Em uma forma mais abrangente, a funcionalidade continua se firmando como um caminho a seguir. Já é sabido que alguns consumidores buscam ingredientes naturais para obterem benefícios funcionais em vez de consumir diretamente vitaminas e suplementos. Já vimos, inclusive, essa informação em anos anteriores. 

A matéria publicada na Veja Rio, em novembro de 2020, traz dados de um estudo da UERJ em 23 estados que apontou um aumento de 90% em casos de depressão, de 40% em casos de estresse agudo e 71% nos casos de ansiedade. Todos aumentos no país mais depressivo da América Latina e mais ansioso do mundo. 

Mas, e os alimentos, o que têm a ver com isso? 

Além da alimentação saudável representar um caminho para o bem-estar, o brasileiro espera que ela ajude a elevar seus níveis de energia (43%) e melhore o humor (30%), além de 40% estarem interessados em consumir produtos que os auxiliem na redução do estresse (todos dados Mintel).

Em setembro, a Pepsico lançou nos Estados Unidos, a Driftwell, uma bebida com L-Teanina, aminoácido que contribui na promoção do relaxamento. O produto inicialmente vendido no canal online, deve chegar ao varejo físico ainda no primeiro trimestre de 2021 por lá.

Destaque na tendência Feed The Mind, da Mintel, a marca norte-americana de chocolates premium Vosges é um exemplo de posicionamento voltado ao bem-estar. Na linha Ritual Collection, seus chocolates são vendidos em kits que contêm incensos, cristais e outros elementos que podem indicar propósitos como prosperidade e amor próprio. Isso é multissensorialidade. 

A multissensorialidade serve como uma distração necessária em tempos como este, criando uma união entre os sentidos. No caso do chocolate, 25% dos brasileiros consomem para lidar com a ansiedade (dados Mintel). Esta função unida a uma excelente apresentação, que pode ser em cor, sabor, textura e até mesmo com todos os itens do kit da Vosges, cria uma experiência única de prazer de consumo. É a indulgência consciente como fator inseparável do bem-estar.

No Brasil, a Desinchá trouxe sua linha “sobremesas”. Os chás funcionais nos sabores Banoffee e Cookies têm o objetivo de substituir um doce após o almoço, meio da tarde ou até após o jantar. Tudo com zero açúcar e zero calorias.

Compras digitais vieram para ficar. E a indulgência consciente também

O brasileiro cozinhou mais. Em uma de suas reportagens, a Folha de São Paulo trouxe a informação da Social Miner de que as compras de supermercado e hortifruti se tornaram o segundo item mais vendido no meio digital. Além disso, 66% dos consumidores continuarão na compra online em 2021. Aliás, este é um assunto que veremos um pouco mais para frente. 

Na categoria “receita” das buscas do Google, pão caseiro, brigadeiro de colher e bolo de cenoura foram as principais buscas. 3 itens que trazem uma outra visão sobre a indulgência: a comida como conforto ou, como dizem alguns, comida que abraça. O pão fresco, o brigadeiro de panela e o bolo com cobertura recém preparada trazem um pouco de nostalgia, o que mantém a busca por sabores que trazem boas memórias em voga.

A Wickbold, aproveitando este movimento na pandemia, lançou a linha Do Seu Forno, um mix que permite ao consumidor fazer seu pão em casa, manualmente ou com a ajuda de uma máquina. 

Com todos os elementos necessários para a execução da receita há quatro versões disponíveis: Original, que lembra o pão de forma branco tradicional; Australiano, que possui massa escurecida feita com cacau de verdade; Integral, perfeito para uma rotina alimentar equilibrada; e Grãos Ancestrais, que conta com quinoa branca, quinoa vermelha, freekeh, espelta, amaranto e chia na composição.

A nova linha de snacks da Thinly Dipped apostou na aliança entre indulgência e saúde: reduziu pela metade o açúcar das linhas tradicionais, apostou no potencial de proteínas do amendoim e em cores e sabores naturais para oferecer um alimento divertido e saboroso nos EUA.

Sabores que fazem viajar

Além daquilo que desperta uma boa lembrança, sabores que fazem viajar podem ser alternativas às restrições de viagens que ainda devem se manter durante o ano de 2021. Sabores do mundo podem satisfazer consumidores aventureiros que buscam sempre novas experiências. Tudo dentro da grande fortaleza contra a pandemia da Covid-19: o lar.

Este lar como centro de todas as coisas, e que deve manter-se como o principal centro de convivência, segundo a Mintel, modificou também o food service. Não só pela adaptação ao delivery, que cresceu exponencialmente em 2020, mas também pela forma da oferta. 

A cozinha, no geral, precisou descomplicar, ainda que com toque de chef, para que não competir diretamente com o que é feito em casa. Muitos restaurantes transformaram suas receitas em kits de refeição, dividindo com o cliente o prazer de cozinhar e, muitas, vezes tornando-se parte do entretenimento em casa. Esta é, inclusive, uma oportunidade que a indústria alimentícia brasileira ainda deixa a desejar, principalmente se olharmos para as ofertas de outros países.

Segundo a avaliação da Baum + Whiteman, 2021 será o ano de redução do número de restaurantes, da alta nos preços e do fortalecimento de comportamentos já listados acima, como a expansão dos kits de refeição, receitas online e, obviamente, o delivery mantendo-se firme e forte.

Tendência já em 2020, as Dark Kitchens (cozinhas que atuam somente para delivery) e as Ghost Kitchens (cozinhas compartilhadas destinadas ao delivery) foram impulsionadas no Brasil. 

O BK anunciou, no segundo semestre, a abertura de sua primeira Ghost Kitchen atendendo as marcas Burger King e Popeye’s. De acordo com dados da consultoria especializada em food service Galunion junto da Associação Nacional de Restaurantes, entre julho e agosto 9% dos restaurantes brasileiros iniciaram operações nessas modalidades.

Em entrevista ao portal Rede Food Service, o coordenador do comitê de Food Service da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos, Daniel Silva, indicou que o trabalho remoto foi responsável pela migração do delivery dos centros comerciais para áreas residenciais, periferias e cidades vizinhas às capitais.

Conveniência ressignificada

Observando um pouco este movimento, fica clara a onipresença da conveniência nas novas relações de consumo. Estar onde o consumidor quer que você esteja, ainda mais com o constante avanço do online em todos os níveis. A tecnologia contribuiu na colocação do mercado 100% a serviço do consumidor.

Estar a serviço do consumidor inclui também fazer parte de suas vidas. O contexto United By Food, tendência 2021 da Mintel, traz o papel dos alimentos e bebidas como forma de expressão e a reunião de tribos. 

Em dezembro, surgiu o Ambev CreativeX, iniciativa que objetiva democratizar a criatividade, promovendo inclusão e diversidade, dando espaço e reconhecimento para novos talentos. 

Qualquer criativo do Brasil pode fazer seu cadastro e participar de uma rotina de curadoria, que oferecerá empregos, freelancers, networking e projetos únicos.

Consolidação da marca como ser social

Um movimento interessante, logo no início da pandemia, foi a mobilização de grandes marcas, incluindo gigantes do mercado de alimentos. De produção de álcool gel a ajuda ao comércio local, ações de combate aos impactos da pandemia entraram no rol de expectativas de 80% dos consumidores brasileiros, ao menos de acordo com pesquisa do Kantar. 

Isso consolida a marca como um ser social, responsável pelos impactos do ambiente em que vivemos, seja na esfera social como também ecológica. E quem assumir esta linha como verdade tende a ganhar mais consumidores. 

A sustentabilidade não é mais tendência, é aqui e agora.

Expansão do plant-based: saudabilidade e sustentabilidade 

Não podemos esquecer do boom Plant-Based. Saindo do hambúrguer e chegando no bacalhau, 2020 foi o ano da disseminação do conceito, ora associado à alimentação saudável ora à sustentabilidade. 

De acordo com estudo da Herbalife Nutrition com a One Poll, 45% dos brasileiros consumiram mais produtos à base de plantas, 46% se esforçaram para reduzir o consumo de carne e a intenção de incorporar produtos plant-based em suas dietas apareceu na resposta de 70% dos entrevistados.

Já em janeiro de 2021, a chilena NotCo lançou 3 novos sabores em sua linha de sorvetes à base de plantas. Os sabores café com cacau, cocada cremosa e caramelo salgado incorporam o portfólio que já contava com os sabores baunilha, chocolate e cookies n’ cream. 

A Mr. Veggy colocou no mercado, em outubro, uma marca de itens plant-based acessível, a Mari Mari, inicialmente com duas opções de hambúrgueres, o tradicional e o churrasco. Os produtos são 100% naturais e têm o preço sugerido a R$ 1,90.

Em setembro, a foodtech brasileira The New Butchers ampliou o seu portfólio de opções de carnes vegetais e lançou o salmão à base de plantas, produzido a partir da proteína de ervilha. 

Produtos plant-based avançam em diferentes categorias para atender o movimento crescente, como a proteína elaborada com sementes de abóboras, oferecida no formato em pó, com sabor de coco e chocolate amargo, lançada na Austrália.

Se 2020 antecipou o futuro, 2021 é o momento de agir sobre ele.

Saímos da capacidade de adaptação do rato e estamos entrando na disciplina e trabalho duro do boi de metal, segundo o horóscopo chinês. E para surfar melhor na era de aquário, a receita aqui já foi dada. Uma nova década de fato começou.

E para você, em quais tendências estão as maiores oportunidades as indústrias de alimentos e bebidas no Brasil? Compartilhe conosco.

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