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Em todo o mundo, avançam pesquisas sobre a interação entre nutrientes e os genes humanos com o objetivo de ajudar as pessoas a ter qualidade de vida, saúde e até prevenir doenças através de dietas personalizadas.



Uma ciência bastante jovem que vem sendo cada vez mais discutida, e pesquisada, pode transformar o futuro da alimentação. É a nutrigenômica, um novo campo que combina as novas tecnologias da ciência da genética e a nutrição clássica, com o objetivo de compreender como a dieta interage com o genoma humano para ajudar as pessoas a ter mais qualidade de vida, otimizar a saúde e reduzir até o risco de doenças através da alimentação.

Hipócrates, pai da medicina ocidental, há mais 2 mil anos já teria chamado a atenção para a importância da alimentação para a saúde, com a emblemática frase:

“Que seu alimento seja seu remédio”. O sequenciamento completo do genoma humano, anunciado em 2003, foi a mola propulsora para a nutrigenômica, que se propõe a estudar justamente a interação entre os nutrientes e os genes humanos. Um dos princípios considerados pelos cientistas é de que os nutrientes podem promover diferentes efeitos em cada pessoa e que o código genético influencia neste processo.

“O que se descobriu com o projeto do genoma humano é que somos 99,9% parecidos e 0,1% diferentes. Mas são justamente essas diferenças que fazem com que cada pessoa responda de modo diferente aos mesmos estímulos”,

Afirmou a cientista e professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Lúcia Regina Ribeiro, coordenadora da Rede Brasileira e Latino-americana de Nutrigenômica, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. 

Embasada nesta constatação, a nutrigenômica tem como proposta estudar a forma como o DNA e o código genético influenciam as necessidades nutricionais e também o metabolismo de nutrientes de cada pessoa. Outra vertente da genômica nutricional, a nutrigenética busca entender a resposta gerada por diferentes tipos de genes ao consumir alimentos.

Para os cientistas, as diferenças genéticas podem ser a explicação porque uma determinada dieta não produz o mesmo efeito de uma pessoa para outra, por exemplo, ou também porque a diminuição do consumo de gorduras não é garantia de redução do risco de colesterol em todas as pessoas.

 

Dieta personalizada

Pesquisadores brasileiros e de outros países que se debruçam sobre este novo campo da ciência acreditam que uma dieta personalizada pode ajudar a equilibrar o funcionamento dos genes e reduzir propensões naturais a certas doenças como a obesidade, diabetes e até mesmo o câncer.

“Todo o alimento é composto por nutrientes e também por compostos bioativos de alimentos (CBAs), que podem ligar o risco de uma doença ou desligar. Como exemplo, podemos citar a uva. É um alimento composto por vários nutrientes, como vitaminas, minerais e carboidratos, e também por bioativos, como os flavonóides, principalmente a antocianina, que é um antioxidante potente para o nosso organismo”.

Explicou a nutricionista e professora catarinense Sandra Soares Melo, doutora em Ciência dos Alimentos pela Universidade de São Paulo (USP) e uma das pioneiras no estudo da nutrigenômica no País, em entrevista à TV Pedra Branca.

 

Propriedades funcionais dos alimentos

Em paralelo aos estudos sobre a interação entre nutrientes e genes, uma outra frente de pesquisas movimenta-se em todo o mundo no sentido de aprofundar os  conhecimentos sobre as propriedades funcionais dos alimentos, principalmente sobre os tipos de compostos bioativos de alimentos (CBAs) e como podem interagir no organismo promovendo a saúde.

No Brasil, o Laboratório de Dieta, Nutrição e Câncer da Faculdade de Ciências Farmacêuticas das USP, liderado pelo professor Fernando Salvador Moreno, desenvolve pesquisas com compostos bioativos presentes nos alimentos com potencial para reverter ou prevenir o câncer.

Junto com o professor Thomas Prates Ong, o grupo do professor Fernando também faz estudos sobre a interação entre nutrientes ou compostos bioativos de alimentos e o genoma, modulando a expressão dos genes, e sua repercussão para a redução do risco de doenças crônicas não-transmissíveis, como hipertensão, diabetes e câncer.

“A capacidade que os nutrientes e CBAs têm de modular a expressão gênica deverá ser considerada para escolha de alimentos específicos com a finalidade de se evitar a ocorrência de doenças, tais como, câncer, diabetes, doenças cardiovasculares e obesidade. O consumo de ácidos graxos ômega-3, presente em alguns tipos de peixes, altera a expressão de mais de 1.000 genes, muitos dos quais envolvidos com a inibição do desenvolvimento da aterosclerose. Além disso, o resveratrol, composto bioativo presente no vinho tinto, é capaz de induzir e reprimir a expressão de genes que codificam para proteínas vasodilatadoras e vasoconstritoras, respectivamente, o que parece explicar seus efeitos benéficos em doenças cardiovasculares”.

Afirmou a farmacêutica industrial Aline de Conti, doutora em Ciência dos Alimentos pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, pós-doutoranda da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, em seu artigo “Nutrigenômica: a ciência da nutrição na era pós-genoma”, publicado na Revista Food Ingredientes Brasil, edição 15.

 

Interesse crescente de consumidores e indústrias

Embora a nutrigenômica seja um campo da ciência bastante jovem, com vasto espaço para explorar e avançar, desperta o interesse das indústrias de alimentos atentas aos movimentos dos consumidores que buscam bem-estar e saúde na alimentação e demonstram interesse cada vez maior na personalização da dieta.

Levantamento realizado pelos organizadores da Vitafoods Europe em 2018 sobre tendências mais importantes para o futuro indicou o interesse crescente da indústria em testes genéticos personalizados e nutrigenômica. Para o gerente de nutrição e saúde do Programa Fonterra, James Dekker, a próxima evolução da tendência de personalização aponta para consumidores tomando decisões com base em seu perfil genético, metabolismo ou riscos de doença.

“Estes são os consumidores que querem fazer mudanças em sua dieta com base em suas necessidades individuais, que podem ser através de testes de DNA, microbiome (intestino) profiling ou outros testes”, afirmou Dekker, em entrevista ao NutritionInsight.

Diante deste cenário, segundo Dekker, o desafio da indústria está em traduzir esta tendência em produtos que os consumidores podem comprar. Algumas iniciativas neste sentido já começam a despontar no mercado global, segundo a Mintel, apostando no uso da tecnologia e da inteligência artificial para suprir esta demanda.

O DNAFit é um exemplo. Desenvolvido no Reino Unido, fornece aos usuários um kit para testar vários biomarcadores nutricionais e de condicionamento físico. Alguns dos biomarcadores testados incluem respostas de carboidratos, de gordura saturada, de intolerância à lactose, bem como sensibilidade a sal, cafeína e álcool. A empresa usa os resultados desses testes para criar planos específicos de exercício e nutrição para atender às metas do indivíduo.

Nos EUA, a Habit , uma startup de nutrição tecnológica, desenvolveu um kit, que inclui um cotonete para teste de DNA, um exame de sangue e uma bebida de desafio metabólico para avaliar a resposta do indivíduo aos macronutrientes.

O teste avalia biomarcadores diferentes relacionados à nutrição, incluindo o metabolismo da cafeína, a digestão da lactose, a capacidade de regular o açúcar no sangue e a predisposição para ganhar peso. O serviço se propõe a analisar os resultados desses testes junto com informações sobre a altura, o peso e a circunferência da cintura do indivíduo, além de respostas a perguntas sobre estilo de vida para criar um plano de nutrição personalizado.

A nutricionista e professora catarinense Sandra Soares Melo dá outros exemplos de aplicação das informações levantadas e estudadas pela nutrigenômica em dietas personalizadas:

“Para pessoas que exercem atividades físicas, esportistas, a nutrigenômica pode ajudar também na questão da imunidade. Existe o gene e a absorção da vitamina C pelo organismo pode variar entre as pessoas. A vitamina C é antioxidante, com potencial de aumentar a imunidade. Se o organismo não absorve bem, aquele atleta vai ter que receber uma quantidade maior de vitamina C. É possível modular o cardápio adequado às necessidades delas”, reforça.

Pesquisadores de diferentes países concordam que a nutrigenômica é um campo promissor que ainda tem muito a ser explorado. O potencial de fornecer às pessoas planos de nutrição detalhados e personalizados é amplo. À medida que os estudos avançam despertam cada vez mais o interesse das pessoas e estabelecem desafios para a indústria encontrar maneiras para atender com produtos às necessidades dos consumidores. 

 

Para você, este novo campo da ciência poderá transformar o futuro da alimentação? Como a indústria de alimentos poderá atender este movimento? Conte para nós!

 

 

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