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Muito além de nutrir, a comida sempre teve papel simbólico na história do ser humano, pela conexão com as emoções e a interação entre as pessoas. Este aspecto começa a ganhar novamente importância diante da tendência crescente de isolamento social e doenças como depressão, abrindo novas demandas de produtos e serviços para indústrias de alimentos em todo o mundo.


 

A conectividade digital constante já dá sinais de um aumento nos sentimentos de solidão, isolamento social e depressão entre as pessoas em diferentes países do mundo.

“A solidão está entrando em foco à medida que as pessoas estão substituindo interações físicas por digitais”

Constata o estudo Global Consumer Trends 2019, da Mintel, agência internacional de inteligência de mercado, que estuda o comportamento de consumidores.

No ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) fez um alerta sobre a depressão: a doença será o maior motivo de afastamento do trabalho no mundo até 2020. E mais: o Brasil já é o país do mundo com o maior número de pessoas com transtorno de ansiedade.

No mesmo estudo, a Mintel indica que a tendência de isolamento social está gerando uma demanda por produtos e serviços de marcas e organizações que auxiliem os consumidores a superar estas dificuldades.

Pelo seu papel simbólico, o alimento, que sempre ocupou lugar de destaque em todas as culturas, tem um potencial natural para tornar-se um aliado ainda maior para ajudar as pessoas a aprenderem se desconectar e a resolver problemas relacionados à saúde.

“A comensalidade, que é a partilha do alimento, é considerada o ato fundador da civilização, um importante veículo de vinculação entre os seres humanos; e o vínculo é protetor para uma série de adoecimentos mentais e físicos”, defende a médica psiquiatra Michele Valent, que uniu seus conhecimentos médicos e de gastronomia para desenvolver o projeto Gastroterapia – Il Giardin em Teutônia (RS).

Com 8 anos, o projeto é um misto de espaço para confraternização, agricultura urbana, estimulando a integração dos participantes desde o ato de cozinhar, servir até o compartilhar da comida.

Michele faz questão de ressaltar que o alimento não é um coadjuvante na saúde, no bem-estar e na felicidade das pessoas: “Ele é o ator principal da peça, porque nós somos o que nós comemos”.

A conscientização das pessoas sobre a conexão entre as emoções e os alimentos tem norteado o desenvolvimento de novos produtos pela indústria alimentícia no mercado, contemplando conceitos como mood food (comida para humor), por exemplo.

 

Mas as ações da indústria de alimentos podem ir mais além. Michele acredita que a indústria de alimentos pode encontrar outras formas de transcender o conceito de saúde no escopo de componentes nutricionais para estimular também formas de consumo mais coletivas, promovendo interação entre as pessoas como um antídoto ao sentimento crescente de solidão.

Campanhas de marketing que proponham brincadeiras e até mesmo produtos que possam ser finalizados de uma forma coletiva, convidando as pessoas a fazer parte do preparo do alimento, são algumas iniciativas positivas indicadas por ela.

Entre os exemplos positivos mais recentes do mercado neste sentido está a linha Mystery, da Doritos, que não relevou os sabores dos dois novos produtos (pacotes branco e preto), em uma campanha de marketing que movimentou redes sociais, promoveu intensa interação entre os consumidores.

A campanha com frases de amor nos bombons Serenata de Amor também foi um sucesso. Ao renovar as embalagens do bombom, a Garoto trouxe frases com expressões de sentimentos e demonstrações de afeto, como “Com carinho” e “Quer sair comigo?”, promovendo ainda mais o conceito dos bombons Serenata de Amor: “delícia que aproxima”.

 

O blog Flavors&Botanicals entrevistou Michele Valent logo após sua palestra  “Gastroterapia – transcendendo o consumo e promovendo a felicidade”, apresentada no evento Horizonte 2019, em Curitiba (PR). Confira abaixo trechos da entrevista:

 

 

 

O alimento na saúde, bem-estar e felicidade do ser humano

“Certamente, o alimento não é um coadjuvante na saúde, no bem-estar e na felicidade. Ele é um dos agentes principais, o ator principal da peça, porque nós somos o que nós comemos. O alimento, uma vez ingerido, se torna nós, tem um lugar no nosso processo de saúde e doença, no nosso processo identitário, nas nossas construções sociais. E este lugar é fortemente simbólico. Então, a comensalidade, que é a partilha do alimento, é considerada o ato fundador da civilização, é um importante veículo de vinculação entre os seres humanos, e o vínculo é protetor para uma série de adoecimentos mentais e físicos.”

 

Proteção contra doenças

“A gente sabe que solidão, que é aquele estado que as nossas necessidades emocionais não são preenchidas pelas pessoas que nos circundam, carrega um risco maior de morte súbita que a própria obesidade. Então, comer coletivamente é protetor contra morte, contra adoecimentos cardiovasculares, contra depressão e ansiedade, melhora os índices de saúde, como dislipidemia (elevação de colesterol e/ou de triglicerídios), obesidade, diabete, porque existe no comer em conjunto uma espécie de controle. As pessoas olham o que a gente está comendo e isso nos ajudar a comer menos do que a gente comeria se nós estivéssemos solitários.”

 

Vínculos ajudam a ser feliz

“A felicidade está muito interligada ao vínculo. Ninguém é feliz sozinho. A gente é feliz com o outro. A gente é feliz para o outro. Se eu proponho metas individuais para mim, eu quero trocar meu carro, eu quero construir minha casa, eu quero concluir meu curso. A meta tem um poder muito limitado de trazer felicidade, porque no momento em que eu cumpro aquela meta eu já tenho outras tantas que quero alcançar. Agora, se eu estou inserido num contexto social, onde a minha atividade, a minha existência tem um propósito, e o que eu faço beneficia outras pessoas, e eu sou mutuamente beneficiado por elas, subitamente, eu me sinto feliz. Então, fazendo da alimentação um ato coletivo, um ato social, a gente pode, sim, construir um portal para a felicidade.”

 

Estímulo ao consumo coletivo

“Um ponto fundamental nesta discussão é a indústria ser capaz de transcender o conceito de saúde enquanto componentes nutricionais. Porque se a gente focar só no componente nutricional, na vitamina, no cálcio, no pouco sódio, isto vai ter um certo impacto na nossa saúde física, sem sombra de dúvida, mas não tem o mesmo impacto sobre a nossa saúde mental, sobre o nosso bem-estar social. Então, talvez não esteja tanto no desenvolvimento do produto em si, mas no encorajamento de formas de consumo mais coletivas. Eu consigo me lembrar de um bombom que trazia mensagens de amor, por exemplo, para dar a alguém que se estivesse interessado. Então, são brincadeiras que a indústria pode propor para encorajar que as pessoas voltem a fazer consumos coletivos da alimentação. Ou também um produto que possa ser finalizado de alguma forma coletiva, para que as pessoas sintam que estão tomando uma parte no preparo daquele alimento.”

 

O cenário crescente de isolamento social, de solidão, é uma preocupação presente em diferentes grupos de pessoas. Em pesquisa feita pela Mintel, 42% dos solteiros disseram que se preocupam em ficar sozinhos em comparação com 35% dos adultos que estão juntos; e 26% dos idosos norte-americanos afirmaram que às vezes se sentem solitários. Um contexto que pode instigar as indústrias de alimentos a desenvolver novas estratégias para ajudar a promover a conexão entre pessoas e grupos, principalmente pelo aspecto simbólico da comida na vida do ser humano.

E você acredita que o mercado de alimentos está atento a estas novas demandas dos consumidores? Como a sua empresa está se movimentando para atender estas necessidades? Conte para nós!

 

 

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