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A retomada do ritual de estar à mesa com a família; a inclusão de alimentos práticos e indulgentes na rotina; os impactos da alta da inflação e a busca dos brasileiros por promoções para manter o consumo de produtos premium; a consolidação de tendências como veganismo e sustentabilidade; como entender e atender a geração Z; e o crescimento da necessidade de uma maior atenção à saúde mental foram temas de destaque do DR Tá na Mesa – Alimentando Ideias, Nutrindo o Futuro, que reuniu especialistas renomados para debater o cenário atual e perspectivas que podem orientar as estratégias de crescimento das empresas no pós-pandemia. Confira os principais insights do grande fórum digital voltado ao mercado de alimentos e bebidas do Brasil e América Latina

Em um contexto que já era marcado por mudanças em ritmo acelerado, com a pandemia, a velocidade dessas transformações se intensificou e está moldando um novo cenário econômico e social.
Agora, temos o avanço da vacinação e uma inflação “apertando” o bolso do consumidor. Com isso, como está o setor de alimentos e bebidas no Brasil, e o que está por vir? 

Para responder a essas perguntas e debater sobre novas oportunidades, a segunda edição do DR Tá na Mesa – Alimentando Ideias, Nutrindo o Futuro reuniu, durante 4 dias, especialistas de áreas estratégicas para compartilhar conteúdo e dados sobre comportamento de consumo; tendências que já são realidade; o perfil da geração Z na hora de comprar e no ambiente de trabalho; estratégias digitais para aumentar as vendas; e a importância de gerenciar a saúde mental nas empresas. 

Separamos destaques do evento para inspirar você!

Como está a mesa do brasileiro em 2021

Mais de 1 ano e meio depois do início da pandemia, com o avanço da vacinação permitindo maior flexibilização das restrições, ao mesmo tempo em que a inflação deixa o bolso dos consumidores “apertado”, os hábitos alimentares da população passam por mais mudanças. Raquel Amancio de Oliveira Ferreira, New Business and Account Director da Kantar, cita alguns fatores que têm impulsionado o consumo:

  • Crescimento do PIB, estimado em 5,3%;
  • Prorrogação do auxílio emergencial;
  • Avanço na vacinação.

Por outro lado, o desemprego crescente, o aumento do endividamento das famílias, a inflação e a cotação do dólar em alta são grandes desafios do momento atual. 

Quando o assunto é o comportamento do brasileiro à mesa, um dos pontos de destaque mencionados por Raquel é a inclusão de itens práticos e indulgentes na rotina. “Vimos o consumidor se dedicar mais ao preparo de alimentos, 2 minutos a mais por refeição durante a pandemia. Foram em média 30 minutos cozinhando por refeição, versus 28 minutos. Passados os primeiros meses, no entanto, o brasileiro buscou mais praticidade e vemos categorias que se sobressaem e permanecem ganhando penetração.”

Confira alguns alimentos que passaram a estar mais presentes nos lares brasileiros:

  • Batata congelada;
  • Empanados;
  • Itens de presuntaria.

O fato é que o brasileiro incrementou mais momentos de consumo dentro de casa e três ocasiões permanecem fortes de acordo com pesquisa da Kantar: o café da manhã, o almoço e o jantar. “O brasileiro retomou o hábito de estar à mesa com sua família, e prioritariamente o café da manhã é um hábito que veio para ficar”, destaca Raquel.

Produtos premium em alta

Até o fim de 2020, os produtos premium estiveram mais presentes na mesa do brasileiro. 

“Para manter produtos indulgentes e práticos na mesa, o consumidor lança mão das marcas de preço intermediário. As classes C, D e E se esforçam para manter produtos premium na mesa, quebrando inclusive alguns paradigmas de que produtos mais sofisticados são para um público de alta renda”, complementa a especialista da Kantar. 

Neste sentido, as promoções têm influenciado esse consumo e se revelaram uma alavanca importante para venda desses itens.

Veganismo e sustentabilidade: tendências que já são realidade

Você sabia que, no Brasil, 1 a cada 4 pessoas aderiram ao veganismo após a pandemia?  “É 4% da população, 7,6 milhões de pessoas, além de outras 28% tentando reduzir o consumo de carne”, aponta Andrea Bisker, CEO e fundadora da consultoria de inovação e tendências Spark: Off Brasil.

Este é um exemplo de tendência que já virou realidade e a prova são os produtos que aparecem nas prateleiras – um dos mais recentes é o McPlant, lanche do McDonalds com fontes de proteínas alternativas à carne. 

Além do veganismo, o comportamento ecoético também é pauta entre as marcas que estão de olho nas mudanças do mercado consumidor. Tanto que a cada 3 brasileiros, 1 está disposto a pagar mais por produtos fabricados de maneira ambientalmente correta, mostram dados apresentados pela CEO da Spark: Off Brasil. “E mais: 66% dos brasileiros entrevistados em pesquisa feita pela IBM Institute for Business disseram estar dispostos a mudar seus hábitos de consumo para reduzir problemas ambientais.” 

Esses dados sinalizam para algo que está cada vez mais evidente: o compromisso das marcas com a sustentabilidade pode ser determinante para muitos consumidores, que enxergam mais valor em quem defende e se posiciona sobre causas ambientais. 

Storytelling: a arte de contar histórias para vender mais no digital

Com um público cada vez mais exigente, conectado e fragmentado em tantas plataformas, não existe mais separação entre o mundo online e offline. Este contexto abre inúmeras possibilidades para comunicar sua marca e engajar seu público. Mas também traz um desafio: como fisgar a atenção do consumidor em um ambiente tão disputado? Uma estratégia que pode fazer toda a diferença para os negócios é o storytelling

“Existem estudos que comprovam que a emoção fixa mais informações na memória. As histórias sempre tiveram o poder de mudar nossas emoções, elas são muito poderosas para moldar a forma como enxergamos o mundo”, explica Martha Gabriel, futurista, especialista em Marketing, PhD e autora de best-sellers.

Ela compartilhou suas dicas para ajudar empreendedores do setor alimentício a contar boas histórias que ajudam a impulsionar a vendas. 

Para isso, o essencial é conhecer bem seu público, saber o que o encanta, quais são suas aspirações, dores e como resolvê-las com seus produtos ou serviços.  A partir disso, Martha sugere uma estrutura para começar a contar sua história:

1 – Mensagem – Pergunte-se o que você quer contar.

2 – Conflito – É a dor do seu cliente, o que ele quer solucionar. Uma boa história tem altos e baixos, destaca a professora. 

3 – Personagem – Aqui, seu produto ou serviço é o personagem, é ele quem entra em cena para resolver o conflito do consumidor.

4 – Enredo – Como sua história será contada. A principal dica de Martha é fazer com que o público se importe. Na primeira cena, na primeira frase o seu consumidor tem que pensar ‘isso vale meu tempo’”, frisa.   

Storytelling transmedia

Com tantos canais físicos e digitais, uma mesma história pode ser contada em diferentes plataformas. Trata-se do conteúdo transmídia. 

“É o processo de pegar uma história maior, que não cabe numa mídia só, e articular em várias outras. Cada mídia vai contar uma parte dessa história de forma completa. Com o storytelling, você orquestra todos esses canais para conseguir um resultado muito mais impactante, usando a força de cada um deles e conectando tudo.” 

Mas, para isso, é fundamental selecionar o momento adequado e a história certa para que os resultados apareçam. 

É necessário ter estratégia e conhecer muito bem o público, em quais canais ele está e o que ele deseja, além de considerar seu objetivo de negócio, reforça Martha.

O comportamento dos Zs e como as marcas podem se comunicar com eles

O comportamento da geração Z já está pautando as relações de consumo e de trabalho. Por isso, é essencial entender o contexto no qual eles estão inseridos, o que querem e como se comportam para que, tanto as marcas como as empresas, saibam como conversar com este público.

“A geração Z, em particular na América Latina, surge em momento de grande reviravolta econômica, política e cultural. Eles também convivem com a explosão dos problemas ambientais e tudo isso gera muita ansiedade”, contextualiza Michel Alcoforado, antropólogo PhD, especializado em consumo e comportamento, e sócio fundador do Grupo Consumoteca.

A saída que eles encontraram para lidar com este mundo, segundo Michel, é o deboche: “é uma estratégia muito usada por estes jovens para se posicionar diante de grupos hierarquicamente superiores a eles. Diante do deboche eles conseguem ser ouvidos porque é engraçado.”

Por isso, as marcas não precisam ter medo de assumir o deboche para se comunicar com eles. Apostar na co-criação é outra dica de Michel para engajar os Zs. Isso porque envolvê-los na construção na marca e trazê-los para o debate alivia a sensação de impotência. E com este público, é importante adotar uma postura adulta: “para eles, assumir responsabilidades alivia um pouco a sensação de impotência também, então nunca infantilize discursos.”

Sobre os hábitos alimentares, o antropólogo resumiu que a dieta dessa geração é consumida com um equilíbrio pragmático: “se enfio o pé na jaca hoje, amanhã recupero o movimento. Se quero comer junk food, posso procurar opções com menos sódio ou açúcar. O trash e a conveniência estão in!”. Mas atenção: “Eles querem ser junkies no consumo, mas a marca não pode ser junk na produção”, ressalta Michel sobre a preocupação desse público com a sustentabilidade.

Como lidar com os conflitos de gerações nas empresas

“Não entender a diferença de contextos é o primeiro gatilho para conflitos internos nas organizações. Não tem certo ou errado. É importante ter mais empatia e entender que são mundos e formações diferentes para as pessoas criarem aquele modelo de pensamento e comportamento. Partindo desta premissa, conseguimos construir não só melhores relações de trabalho, mas também relações pessoais”, analisa Gabriela de Conto, Diretora de Marketing Latam da Red Bull.

Para Gabriela, a chave para contornar o inevitável choque entre gerações é olhar tudo sob uma ótica mais empática. Ela ainda destaca as lições que tem aprendido a trabalhar com pessoas da geração Z: “Eles têm algo muito peculiar. Por terem tanto acesso à informação e múltiplas possibilidades, eles valorizam a mobilidade e têm uma identidade mais fluida. Podem ser quem quiserem, estar onde quiserem. Enxergam os empregos como uma passagem, uma experiência e não algo para criar raízes. Isso é muito claro na geração Z e não é necessariamente ruim. Eles não são menos comprometidos ou profissionais por conta disso. É simplesmente uma relação diferente com o trabalho que se dá em um mundo diferente.”

Por outro lado, as empresas podem ajudar os Zs a administrar a questão da ansiedade, tão latente nessa geração. Gabriela observou que eles pedem mais autonomia, mas muitas possibilidades geram justamente ansiedade. Então, o caminho é ter processos estruturados, agendas organizadas e objetivos claros para dar mais segurança nesses colaboradores. 

“É preciso entender que o mundo está em 2021. E se eu quero o sucesso da minha empresa a longo prazo, dependo desta nova geração”, alerta.

Desafios para promover a gestão emocional no ambiente de trabalho

Com todos os acontecimentos do último ano e meio, a saúde mental pediu uma atenção especial das empresas. Mas para lidar com um tema tão sério, é necessário rever e aprimorar as maneiras como as organizações abordam a saúde e o bem-estar no seu dia a dia. “Evoluímos para estruturas complexas, com trabalhos colaborativos que exigem cada vez mais da nossa cabeça e ainda não aprimoramos os modelos de saúde das organizações para entender este novo cenário que exige tanto em termos de saúde mental”, observa Jorge Morato, Diretor de Saúde, Segurança e Meio Ambiente na Mondelez Brasil.

Cauê de Oliveira, Embaixador do Giftwork e Palestrante do Youleader/Great Place to Work traz dados que mostram o tamanho do problema no Brasil quando o assunto é saúde mental:

  •  79% dos colaboradores relatam ter sofrido estresse nos últimos 12 meses;
  • 45% consideraram deixar o emprego devido ao estresse;
  • 49% não acham que seu líder imediato saberia o que fazer se conversassem sobre o tema saúde mental.

Eles ressaltam que não existem fórmulas prontas, mas existem caminhos e iniciativas que podem transformar a maneira como as empresas lidam com o tema. 

“Muitas vezes aprendemos a ser líderes quando somos colocados naquela posição. Saúde mental é um tema complexo e precisa ser dividido. Além disso, é imprescindível que a liderança seja pautada na confiança e no bem-estar das equipes”, observa Cauê. 

O executivo da Mondelez Brasil pontua algumas iniciativas que podem ser feitas nesse sentido:

  • Montar equipes com profissionais preparados;
  • Criar programas voltados para a saúde mental dos funcionários;
  • Pesquisar e estudar muito sobre o tema;
  • Usar dados para desenvolver ações dentro das empresas;
  • Sempre colocar o ser humano no centro de tudo.

Pedro Shiozawa, Médico Psiquiatra, COO & Co-fundador da Jungle XP cita como exemplo o caso da ginasta Simone Biles para reforçar a análise de seus colegas. Ele destaca que, por mais louvável que tenha sido a iniciativa da ginasta ao desistir de competir uma final nas Olimpíadas para priorizar sua saúde mental, ela também conseguiu tomar aquela atitude porque havia um ambiente acolhedor, um gestor que deu condições para que ela tomasse a decisão. 

“A liderança começa consigo mesmo. Os líderes devem se autoconhecer e também pedir ajuda quando precisarem. Já as organizações podem levar essa pauta para seu dia a dia com palestras, workshops e treinamentos. Isso vira um simbolismo dentro da organização e denota a cultura que a empresa quer promover”, completa Cauê.

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