Tempo de leitura: 8 minutos

Redução de desperdícios nos diferentes setores e na cadeia de produção, a partir da identificação do que realmente é valor para o cliente, são premissas básicas do sistema Lean. Aplicação dos conceitos e ferramentas auxilia empresas em iniciativas para enxugar custos, ganhar tempo e assegurar resultados para a sustentabilidade do negócio


O ritmo acelerado do mercado tem pressionado empresas dos mais diferentes setores a buscar soluções ágeis, inovadoras, ao menor custo possível com produtos de qualidade inquestionável que atendam às necessidades e exigências dos consumidores para manter a sua competitividade. Este desafio ganhou proporções ainda maiores com o cenário de crise provocado pela pandemia da COVID-19 em todo o mundo.

E com a indústria alimentícia não é diferente.

Em meio a ferramentas, tecnologias e metodologias disponíveis no mercado, os conceitos de gestão Lean (gestão enxuta) estão entre iniciativas aplicadas com sucesso por empresas de alimentos e bebidas em todo o mundo na busca por maior eficiência, assertividade e geração de resultados.

Isto porque uma das premissas básicas da Filosofia Lean, o combate ao desperdício, encontra inúmeras as oportunidades de ganhos e melhorias no segmento de alimentos, que registra perdas significativas em toda a cadeia. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO/ONU), 

“mais da metade (54%) da perda de alimentos no mundo ocorre na fase inicial da produção, na manipulação, pós-colheita e armazenagem. O restante (46%) acontece nas etapas de processamento, distribuição e consumo”. SNA.AGR 

Desenvolvida pelo executivo da Toyota Taiichi Ohno durante o período de reconstrução do Japão após a 2ª Guerra Mundial, a filosofia Lean está mais atual que nunca.

Inicialmente aplicada nas montadoras de automóveis, os princípios do Lean Manufacturing (produção enxuta) expandiram para os mais diversos setores, gerando resultados extremamente interessantes a partir da identificação do que é valor para o cliente, por exemplo, produtos mais competitivos, demandas flexíveis, tempos de entrega ajustados, produtos com qualidade assegurada, livres de defeitos.

Para entender o que é valor para o cliente, é necessário compreender por quais atributos do produto ou do serviço ele está disposto a pagar. É preciso analisar todas as atividades que são realizadas, desde a compra da matéria-prima até a entrega do produto final, promovendo a eliminação dos possíveis desperdícios existentes no processo e na rotina do dia a dia, como superprodução, tempos de espera (paradas), excesso de tempo em transporte, no processamento em si, de movimentação de pessoas e defeitos de produtos.

Conceitos aplicáveis em todos os setores

Os conceitos e ferramentas Lean que começaram na área de produção agora são aplicados em diversos setores do negócio, como no desenvolvimento de produtos e serviços, na logística, em escritórios, transformando-se em o que o Institute Lean Brasil define como Lean Enterprise ou Lean Business System.

É possível assegurar melhorias e ganhos em processos que se iniciam e finalizam dentro de uma área ou setor, como exemplo: folha de pagamento de funcionários pelo RH.

Em um escopo maior, pode-se conquistar resultados com os conceitos e ferramentas Lean em processos que começam em uma área ou setor e finalizam em outra. Um exemplo poderia ser o atendimento de um pedido de cliente, que se inicia na área comercial, passa por suprimentos, atravessa a produção, a qualidade e finaliza na logística.

E há ainda processos mais abrangentes, que envolvem fornecedores por meio do fluxo de compras e abastecimento de materiais, e clientes por meio do fluxo da demanda e necessidades de produtos e serviços.

“Em todos os elos da cadeia podem existir rupturas que geram perdas, atrasos, erros, custos e insatisfações. Tratar esses desperdícios significa transformá-los em oportunidades de melhoria, com benefícios às pessoas, à organização e ao cliente”, afirma Cristina Tazinaffo, Gerente de Lean Value Chain da Duas Rodas.

Exemplos práticos em indústrias de alimentos

Considerando toda a cadeia da produção de alimentos, do campo até o consumidor final, as perdas e desperdícios de materiais são enormes, os custos envolvidos no processamento, armazenagem e transportes são calculáveis, o que faz com que as indústrias de alimentos possam somar vários ganhos com a utilização dos conceitos e ferramentas Lean.

É possível desde enxugar processos internos, tornando-os mais eficientes e produtivos, até se aproximar de clientes e fornecedores que compõem da sua cadeia supply chain, promovendo benefícios mútuos.

Entre exemplos práticos de aplicação da filosofia Lean em processos internos de indústrias alimentícias, é possível citar ganho de tempo em atividades de cadastro de novos produtos na área de P&D com a redução do número de telas e registros inseridos no sistema, alcançando índices que passam de 90%. O tempo ganho com a otimização do processo é possível destinar para aprimorar, com mais rapidez e eficiência ampliada, o atendimento ao cliente.

Em processos produtivos, há cases de utilização dos conceitos e ferramentas que permitiram identificar e resolver gargalos de produção, possibilitando dobrar a produtividade da linha até mesmo sem realizar novos investimentos em equipamentos ou novas contratações.

As experiências de sucesso também ultrapassam as fronteiras de uma organização, em um processo colaborativo de aplicação das ferramentas Lean entre parceiros da cadeia de produção, proporcionando ganhos para todos os envolvidos, desde o fornecedor de matéria-prima, passando pela indústria até o consumidor final.

Cultura Lean

“Para aplicar o sistema Lean é preciso ter um propósito definido, rever processos, aplicando as várias ferramentas Lean, capacitar as pessoas, mudar o sistema de liderança e o modelo mental”.

Defende o vice-presidente do Lean Institute Brasil, Flavio Augusto Picchi, em entrevista ao Blog Fispal Tec Digital.  Isto porque, muito mais que um conjunto de ferramentas e conceitos, para alcançar os resultados esperados pela organização, a filosofia Lean deve integrar a estratégia de negócio.

“Todos os níveis necessitam estar orientados a um desdobramento em planos de ação, alinhados ao desenvolvimento da cultura de pensamento enxuto e da melhoria, com a mudança efetiva na forma de pensar das pessoas, além de uma contínua revisão dos processos essenciais do negócio e uma maximização do uso de recursos e na entrega de valor ao cliente. O Lean é um sistema de gestão da melhoria que coloca as organizações em uma grande jornada de transformações”, afirma Cristina.

Ferramentas

Há um grande arsenal de ferramentas Lean disponíveis que podem ser utilizadas pelas lideranças e equipes.

Uma das principais aplicadas para identificar as rupturas que afetam a competitividade de uma organização ou a sua relação com fornecedores e clientes é o VSM (Value Stream Mapping ou Mapeamento do Fluxo do Valor), que faz o mapeamento do estado atual de um processo, auxilia na identificação dos desperdícios e facilita a adoção de ações futuras em busca da resolução de problemas ou aproveitamento de oportunidades.

Outra ferramenta bastante útil para as indústrias de alimentos que precisam fazer higienizações frequentes em suas linhas de produção para evitar contaminações dos produtos é o SMED (Single Minute Exchange of Die, que pode ser traduzido como troca rápida de ferramenta), que visa reduzir o tempo de setup de uma máquina. A sua aplicação tem o objetivo de fazer a higienização de forma muito eficiente e ao menor tempo possível, a exemplo da troca de pneus de um carro de Fórmula 1, em que qualquer segundo gasto a mais pode comprometer o resultado da corrida.

Em uma cultura Lean, a padronização ganha destaque como importante ferramenta de prevenção de falhas e defeitos. Padronizar “o como” fazer e executar conforme o padrão é essencial para evitar rejeições durante o processo e reclamações ou devoluções de produto comercializados.

Além disso, a utilização da gestão visual como forma de expor os padrões pode facilitar a assimilação e compreensão das pessoas que executam as tarefas padronizadas. Programas como 5S ou 6S dão suporte a esta atitude.

Em uma época de concorrência cada vez mais acirrada, encontrar estratégias para otimizar fluxo de produtos e serviços pode se tornar o diferencial para manter a competitividade e a sustentabilidade dos negócios. E a aplicação de sistemas, como o Lean, estão entre ações adotadas por indústrias de alimentos e bebidas para entender o que é valor de fato para o cliente, otimizando produtos e serviços através do mapeamento e combate de desperdícios em diferentes setores e processos da cadeia.

Para você, o sistema Lean pode ajudar uma empresa alimentícia a ter mais eficiência e gerar resultados? Conhece algum case de sucesso para compartilhar? Conte para nós!

Compartilhe o conteúdo
Queremos te ouvir! Comente!